O Trabalho de Percepção
do Neófito
Parte 1: Dos bastidores da Mudança Fundamental de
Paradigma à
Percepção do Papel Social
O objetivo deste
artigo não é somente abordar sobre o trabalho do Neófito pelo viés dos libri
185 e 13, mas considerando que para além da metodologia deixada por Crowley, há
os aspectos culturais, inerentes aos legados delineados, ao longo do tempo, por
cada linhagem. E, a partir desse cenário, analisar os aspectos vividos nos
bastidores que influenciam diretamente no trabalho iniciático: bastidores provenientes
das relações de instrução e das relações criadas em atividades externas para
divulgação da Lei de Thelema.
Sou membra da
linhagem representada nesse “plano de discos” pela Abadia de Thelema Het Heru,
cuja herança e o pilar central por onde se estruturam a cultura e a diretriz da
linha de transmissão, é o “Sistema do Motta”[1], fundamentado na Mudança Fundamental
de Paradigma e no Trabalho de Percepção[2]. Não obstante, me basearei nas
observações e nas experiências adquiridas em minha linha de transmissão, mas
acredito que os membros das demais linhagens, possam se identificar com o conteúdo
apresentado.
No entanto, o
artigo será divido em duas partes: a
primeira abordará o processo de transição do(a) Aspirante, do Probacionato ao
Neofitado, enfatizando a importância da Mudança Fundamental de Paradigma e do Trabalho
de Percepção na articulação do papel social do(a) Neófito(a). E a segunda parte
abordará o Trabalho de Percepção do(a) Neófito(a) com foco no treinamento mágicko.
Os Bastidores da Mudança Fundamental
Muitos
Probacionistas “caem de paraquedas” em linhagens sem procurarem saber quais são
os seus procedimentos, qual é a sua cultura, e nem sequer conhecem sobre o
trabalho externo que executam. O desejo de pertencerem a uma Ordem Thelêmica, à
Santa Ordem, e realizarem um trabalho espiritual de cunho “solitário” é tão
imperativo, que por vezes, o(a) Aspirante assina o juramento referente às
tarefas do grau sem se ater às entrelinhas, e se esquece, principalmente, que
existe uma egrégora espiritual, invisível aos olhos, porém, muito viva e ativa.
Na linhagem da Abadia Het Heru, o processo espiritual da Santa Ordem é
individual, mas não é individualista. Com o tempo, o(a) Aspirante, ao se tornar
Neófito(a), irá receber pessoas para instruir e precisará se comprometer a
isso; o(a) Neófito(a) precisará realizar um trabalho de divulgação (que pode ou
não envolver trabalho em grupo) e também precisará se comprometer a isso. Está
no juramento. Mas será que todo Probacionista, tem consciência desse
comprometimento ou apenas segue o fluxo?
A Grande Obra do
Probacionista não é somente a descoberta da Natureza e os Poderes do Próprio
Ser, mas principalmente, a realização da Mudança Fundamental de Paradigma, que
sintetiza o processo de mudança do ponto de vista da Terra para o ponto de
vista do Sol, conforme descrito no ensaio “Passando do Velho ao Novo Aeon”, do
Frater Achad. Para que a Mudança Fundamental aconteça é necessário que seja
realizado, simultaneamente, um Trabalho de Percepção, de autopercepção.
Há alguns anos, escrevi o texto: “Magia versus Magick: Escape da Realidade ou Experienciação? Desmistificando o Trabalho de Percepção ao Probacionista” que visava contextualizar o Trabalho de Percepção ao mesmo tempo que criava um paralelo com os conceitos que Crowley adotou sobre Magick.
“Magick é a Ciência de entender a si mesmo e suas condições. É a arte de aplicar este entendimento à ação.” (CROWLEY, Aleister. Liber ABA, Parte III, Magick em Teoria e Prática. Introdução.)
A
necessidade de escrever sobre o tema surgiu após tanto observar considerável
confusão em relação ao Trabalho de Percepção nas práticas dos meus instruídos.
Recapitulando, a percepção é a interpretação das sensações (cinco sentidos do
corpo) e dos estímulos externos provenientes do meio ambiente. No entanto, no
treinamento, o desafio está em “perceber sem classificar”, o que significa que
precisamos nos isentar de fazer qualquer julgamento sobre nossas percepções,
porque a intenção é não intelectualizar ou conceituar. Trabalhar a percepção permite que seja
refinada a habilidade de notar o sutil, tanto em si mesmo quanto ao seu redor.
Isso inclui identificar as forças que te influenciam e as realidades da sua
vida que costumam passar despercebidas. Mais do que uma habilidade, é um
pré-requisito: fundamentalmente, a percepção é o alicerce indispensável para
qualquer Mudança de Paradigma ou processo de Iniciação.
Importante que
seja dito que essa Mudança Fundamental não se efetua no Probacionato, ela
somente se inicia, a nível de percepção, no Probacionato, e continua se
lapidando, progressivamente, nos demais graus elementais, concluindo-se na
consecução do SAG. No Probacionato, o(a) Aspirante, primeiro, à nível
intelectual, se entende e se percebe como Sol, e no Neofitado chega o momento
dele(a) experienciar, na pele, o que é se tornar esse Sol em meio ao caos do
dia a dia, aprendendo através da prática do Asana, a se autocentrar e a educar
o ego que se encontra rendido, oprimido entre os desejos incontroláveis de
Nephesh e às pressões, normativas socioculturais. Ele(a) cede aos estímulos
fisiológicos, instintivos e por hora infantis, ou cede aos mecanismos de
controle e coesão sociais impostos pela família, pelos amigos, pelas
instituições, pelas normas, leis e bons costumes? Talvez pela primeira vez em
toda sua vida, o(a) Aspirante, inicia um processo contínuo de “despertar” e
percebe esse conflito no seu Ser.
“Todo homem e toda mulher tem um curso, dependendo parcialmente do indivíduo e parcialmente do ambiente, que é natural e necessário para cada um. Qualquer um que seja forçado a sair de seu próprio caminho, por não entender a si mesmo ou por oposição externa, entra em conflito com a ordem do Universo, e sofre de acordo.” (CROWLEY, Aleister. Liber ABA, Parte III, Magick em Teoria e Prática. Introdução.)
O objetivo do
trabalho é obter a percepção, não das causas desse conflito (que geralmente são
inconscientes) mas como ele reverbera no corpo físico, e no comportamento do(a)
Aspirante. O Sol que até então permanecia etérico, à nível do intelecto, agora
passa a ressoar internamente, vibrando no corpo físico. A primeira fase do Trabalho de Percepção do(a)
Neófito(a) em consonância com a proposta da Mudança Fundamental visa a autopercepção
sob a ótica do seu próprio corpo físico, e o funcionamento dos seus cinco sentidos:
visão, audição, paladar, olfato e tato, pois é através deles que acontece a
interação com o mundo basilar à volta. Em seguida, propõem-se ao Neofito(a) o
estudo detalhado sobre Nephesh e seu campo de atuação, para que possa entender
a interrelação do corpo físico com o Mundo de Assiyah: plano Cabalístico correspondente ao trabalho do(a) Neófito(a).
Numa breve
explicação, Nephesh refere-se a uma das cinco partes da Alma do Ser Humano que
corresponde à energia vital. É chamada de Alma Animal por ser responsável pelos
instintos de sobrevivência e perpetuação da espécie, e estar ligada aos
sentidos, emoções e desejos primários como fome, sono, fraqueza, alegria,
raiva, tristeza, frustração, paixão, libido, ciúmes, inveja etc., atributos que
determinam e direcionam os vícios e virtudes do ser humano, e com isso, contribuem
na formação da personalidade. Irei me aprofundar neste assunto na segunda parte
deste artigo, focado no treinamento mágicko. Antes, irei abordar um pouco sobre o período de transição do
Probacionato ao Neofitado e na adaptação do(a) Neófito(a) quanto às atribuições
de instrutor(a) e de divulgador(a) da Lei de Thelema.
A Transição: a interface do trabalho de autopercepção e o papel social
A transição do “Mundo
das Conchas” (Qliphot) ao “Plano de Discos” (Assiyah), não acontece, instantaneamente, após
a realização do Ritual do Pyramidos[3], com a travessia do véu de entrada
para a Árvore da Vida chamado Portae ou Portal, que configura acesso à Malkut, a primeira sephirah elemental, relacionada ao elemento
Terra. Aliás, um dos principais objetivos deste ritual é formular o corpo de
luz ou corpo astral do(a) Aspirante, simbolizado pela Construção da Pirâmide, o(a)
preparando para jornada iniciatica que se inicia no Neofitado. Isto posto, nada
é de imediato, todas aquelas simbologias vivenciadas durante o ritual
permanecem latentes no inconsciente do(a) Aspirante, e somente irão emergir para
a consciência, no decorrer do treinamento mágicko.
Em outras palavras, a consciência do(a) Neófito(a) ainda permanecerá no Probacionato por um bom tempo, durante a sua experiência no Neofitado, e essa transição de consciência irá se estabelecer não somente através do treinamento mágicko, mas principalmente pelo papel social que o(a) Neófito(a) passará a assumir no meio Thelêmico: os papéis de instrutor(a) e divulgador(a) da Lei de Thelema. São os papéis sociais que irão testá-lo(a), enquanto o treinamento será posto à prova quanto a sua eficácia na educação do ego. O treinamento dispõe de ferramentas que irão ajudá-lo(a) a enfrentar os ordálios do grau, mas a iniciação só ocorrerá quando ele(a) conseguir interrelacionar e interconectar a experiência mágicka à experiência de vida (que precisam permanecer se retroalimentando) e por fim, se autoperceber como agente deste processo: não há Mudança de Paradigma, muito menos Iniciação, sem Trabalho de Percepção.
O desafio da adaptação: as atribuições de instrutor(a) e de divulgador(a) da Lei de Thelema.
Diante do exposto,
uma das maiores inseguranças encontradas pelo(a) Neófito(a) está no ato de
instruir. Salvo exceções, eis o momento que toda aquela fantasia sobre “saber
tudo”, e quiçá, até mais do que o(a) próprio(a) instrutor(a), se desconfigura,
e a insegurança pega a frente daquele ego que um dia se achou tão importante.
Lidar com pessoas é uma tarefa muito difícil, e nem sempre ou quase nunca, o(a)
Neófito(a) irá receber Estudantes ou Probacionistas dispostos a terem uma
escuta ativa e a seguirem as instruções para realizarem o treinamento. Boa
relação de instrução é uma loteria. Sinto dizer que as instrutoras tendem a
sofrer mais neste processo visto que mais de 90% dos candidatos são do sexo
masculino. Muitos homens (e até mesmo mulheres) não aceitam serem instruídos
por uma mulher. Isso, infelizmente, é estrutural, socialmente estrutural, mas
não adentrarei nesse assunto, pois devido a relevância renderia tema para outro
artigo.
No início, a maior medo está em dizer “não”, e este contém todos os demais medos: medo de
transparecer que não sabe de algum assunto (que realmente não sabe e não tem
obrigação de saber); medo de confrontar; medo de colocar limite para qualquer
atitude desrespeitosa; medo de efetuar desligamento daqueles(as) que não
responderem efetivamente ao treinamento. Portanto, o medo da negativa (e da
rejeição) leva o(a) Neófito(a) à fuga, à fazer as vontades do(a) instruído(a),
à se anular como instrutor(a), se prejudicando no próprio processo de
aprendizagem para com o outro. Como nos primórdios dizia o meu instrutor: “O Probacionista não manda em nada, não
decide nada. As rédeas estão sempre nas mãos do Neófito, é ele quem conduz,
quem dita as regras.”
O exemplo da instrução foi um grande presente que o meu instrutor, Frater Hoor,
me deixou, e sei que, igualmente, foi uma herança deixada pelo instrutor dele,
Frater QVIF.
A instrução é uma
troca, o(a) instrutor(a) está sempre aprendendo quando está instruindo. Eu fico
indignada ao ver ainda tantos instrutores negligentes e preguiçosos para com os
seus, estes não têm ideia do quanto poderiam estar aprendendo ao visitar o
processo alheio, pois assim, automaticamente, estariam revisitando
constantemente os seus próprios processos, e os observando por diversas
perspectivas. No juramento do Neófito está escrito: “eu prometo observar zelo em serviço
dos Probacionistas abaixo de mim, e a negar-me completamente a seu favor”. Este “negar-me” não significa se
omitir, mas o oposto: significa doar o seu tempo, se colocar à disposição, e por
vezes, dedicar as poucas horas que possui destinadas ao próprio treinamento, para ler
e comentar algum diário, ou responder alguma dúvida.
Por outro lado, é
de suma importância, que o(a) instrutor(a), com o passar do tempo, perceba o
“ponto certo” de instruir, e que busque o equilíbrio entre a ausência[4] e a presença constante, entre a negligência
e o controle: a cobrança do diário e do treinamento devem ser ministrados com
parcimônia, não em forma de controle, pressão ou de manipulação. Quem tem que
querer avançar e fazer por onde é o(a) instruído(a), o(a) instrutor(a) está no
papel coadjuvante de direcionar, e isto não significa “levar pela mão”. No caso
do(a) Probacionista, a Mudança Fundamental de Paradigma deve ser alcançada por
percepção e mérito próprios dele(a), e não com um “empurrãozinho” do(a) instrutor(a),
caso contrário, que tipo de Neófito(a) esse(a) Aspirante virá a ser? O(a)
Neófito(a) não irá avançar de grau se avançar um(a) Probacionista, isso não é
uma moeda de troca.
O mesmo acontece
com o trabalho de divulgação da Lei de Thelema. Quantos já pediram desligamento
por se recusarem a “aparecer” ou não verem sentido em realizar tal tarefa?
Entre aspas, porque atualmente, com tantos meios de comunicação disponíveis,
desde redes sociais, podcasts, até blogs e revistas, nem a cara mais se precisa
mostrar. Na época do Motta e do Euclydes de Lacerda, usavam-se desde folhetos
impressos, cartazes espalhados em universidades, até anúncios em jornais, e
hoje em dia, muitos Neófitos(as) “sapateiam” quando são solicitados para
escrever um pequeno texto ou gravar um áudio livro.
Notas finais: a importância da Mudança Fundamental de Paradigma e do Trabalho de Percepção na articulação do papel social do(a) Neófito(a)
Percebem o poder
da influência dos papéis sociais adquiridos pelo(a) Neófito(a) em seu processo
iniciático?!? E como isso é negligenciado?
Antes que
questionem, sim, é declarado que membros da A.’A. não se reúnem em nome da A.’A.[5], portanto, isso não inclui as relações
de instrução. Todavia, os trabalhos de divulgação, quando realizados em grupo,
se fazem por meio de uma instituição ou de um braço físico à serviço da Santa
Ordem.
Longe do que muitos
imaginam, o ato de instruir e divulgar a Lei de Thelema está diretamente
relacionado ao propósito da Mudança Fundamental de Paradigma, sendo o Trabalho de
Percepção, a base, o suporte pelo qual o(a) Neófito(a) desenvolverá a expertise
da auto-observação a fim de identificar e superar os eventuais obstáculos que
influenciam na realização de tais funções. É importante ressaltar, que mesmo
não sendo o ordálio do grau, as simpatias e antipatias do(a) Aspirante serão
colocadas em prova desde o início do treinamento da Ordem, e ao desenvolver a
educação do ego, ele(a) precisará aprender a se adaptar a isso.
Como já foi dito, é
ilusão pensar o processo iniciático somente pelo viés das práticas mágickas. O
treinamento precisa englobar o relacionamento interpessoal, para ser validado,
pois há nuances do processo que só podem ser vislumbradas através do comportamento
do(a) Aspirante, e não pelas descrições do diário mágicko.
Para finalizar a primeira parte desse
artigo, reitero: a forma como um(a) Neófito(a) administra os papéis de
instrutor(a) e divulgador(a) da Lei de Thelema diz muito a respeito da
maturidade que ele(a) está galgando em seu processo, e está associado à consecução
de perceber-se como Centro do Próprio Universo. Ademais, isso também diz muito
sobre a Aspiração para com o caminho da Santa Ordem, assim como, se há discernimento
do(a) Aspirante rumo ao objetivo central do grau de Neófito: a visão do Sagrado
Anjo Guardião.
ignis@abadiadethelema.com
Bibliografia recomendada:
IGNIS, Soror. Magia versus Magick: Escape da Realidade ou Experienciação? Desmistificando o Trabalho de Percepção ao Probacionista. Disponível em: https://blogdaabadia.blogspot.com/2022/04/magia-versus-magick-escape-da-realidade.html Acesso em: 20 dez. 2025.
QVIF, Frater. A Mudança Fundamental. Disponível em: https://blogdaabadia.blogspot.com/2021/01/a-mudanca-fundamental.html Acesso em: 20 dez. 2025.
QVIF, Frater. 10 Considerações sobre Malkut. Disponível em: https://blogdaabadia.blogspot.com/2020/04/10-consideracoes-sobre-malkuth.html Acesso em: 20 dez. 2025.
[1]
Marcelo Ramos Motta.
[2]
Que contemplam em seu
treinamento peculiaridades no uso da Cabala, o Tarot de Thoth, Sistema de
Chackas/Endocrinos, de acordo com o trabalho de cada grau elemental.
[3]
Liber
THROA, mais conhecido como Liber Pyramidos – Sub Figura DCLXXI (671).
[4]
Salvo em casos que o(a)
Probacionista não responde ao treinamento, e nem ao contato do(a) instrutor(a),
e some.
[5] Porque a Santa Ordem
não existe no plano físico.

Comentários
Postar um comentário