GNOSTICISMO EM THELEMA
Faze o que Tu queres há de
ser tudo da Lei.
Para entender o gnosticismo em Thelema temos que entender o que
seria isso. Tomando como ponto de partida os Gnósticos, eles entendem a
dualidade como a própria razão de criação do mundo, principalmente para Mani
(Maniqueísmo) e Zaratustra. Eles dividiram o mundo em duas polaridades: luz e
escuridão, positivo e negativo. Em suma, a dualidade é uma divisão de forças na
unidade. Antes, a energia criativa era perfeita em si mesma, mas a sua divisão
acarreta a própria criação da existência.
Do ponto de vista da humanidade, a existência gnóstica é a ideia
de oposição entre o mundo e Deus, resultante da separação, o que é chamado de
Queda (para os cristãos origem do pecado original). Hans Jonas diz que a
essência do gnosticismo é o dualismo radical entre Deus e o mundo. A origem do
mal gnóstico provém dessa Queda, sendo que separado da unidade, todo o universo
dos sentidos é experimentado e julgado como mau. Deus não criou o mundo e nem o
governa. Deus não é o mundo. Assim, abaixo de Deus inefável existe outro Deus
inferior, que reforça a ideia do dualismo, na qual criou e que domina o mundo
material, Demiurgo. Desta forma, no que tange o gnosticismo clássico, o bem e o
mal seriam dois princípios contrários e iguais, em perpétua luta dialética.
Sendo Demiurgo muitas vezes confundido com o próprio Diabo, culpado por criar
um mundo imperfeito. Para o gnóstico clássico o mundo é uma prisão, na qual é
preciso escapar dele.
Por outro lado, há também um tipo de gnosticismo moderno, na qual Thelema
se revela como principal expoente. Podemos falar, então, de dois sistemas
gnósticos: o clássico (pessimista) e o moderno (otimista). Hans Jonas, em “The
Gnostic Religion”, destaca as características comuns aos gnósticos, tanto
clássicos e modernos: 1) O gnosticismo é a convicção da identidade divina do
Homem, e de que esta diz respeito tanto à sua proveniência como ao seu destino.
2) A gnose não se faz por procuração; é um processo estritamente pessoal, que
permitiria ao indivíduo libertar-se do domínio do mal, isto é, do mundo
material de vicissitudes. O tipo de adversidades que marca a diferença entre os
sistemas pessimistas e otimistas.
No gnosticismo moderno o domínio do mal é relativizado. A matéria
é impregnada daquilo que é divino, mas encoberta como uma ilusão ou uma
representação, como expresso no mito da Caverna de Platão. René Guénon discorre
sobre o tema em sua obra “Demiurgo”, na qual diz que a dualidade é forçosamente
contida na totalidade ou unidade, que está oposição não pode ser mais que
aparente. Deste modo, não há oposição, mas somente uma distinção, o resultado
de nossa forma de ver as coisas. Essa distinção é somente ilusória, pois não
podemos conceber aquilo que não é manifestado, como o espírito. O perfeito
(Princípio da totalidade) não pode produzir o imperfeito, o que é chamado de
imperfeito é uma relatividade. O “erro é verdade relativa, já que todos os
erros devem estar compreendidos na verdade total, sem o que está, estando
limitada por algo que estaria fora dela, não seria perfeita”. O mal só
existe fora da Unidade, ou na multiplicidade. A multiplicidade é o domínio de
Demiurgo, em oposição ao mundo superior. Interessante, que Guénon conclui que
Demiurgo não é uma potência externa ao homem, mas sua própria vontade. E que
Demiurgo se tornar Satã, o Adversário quando o homem tenta sair do domínio
dela. Podemos falar em Personalidade se contrapondo à Individualidade; ou
Nephesh e Yechidah? Assim, o mito da Queda seria um processo psicológico
interno ao homem, a cosmogonia funde-se na psicologia. Metafisicamente, Guénon
adverte sobre esse domínio ilusório que do ponto de vista do alto (da Unidade)
não existe distinção.
O Livro da Lei toca nesse ponto, na sequência do verso 29 e 30 do
capítulo I. Invertendo os artigos extraímos uma melhor compreensão do
gnosticismo otimista. No verso 30, Nuit diz: “Esta é a criação do mundo, que
a dor da divisão é como nada e o prazer da dissolução, tudo”. No Livro da
Lei Comentado, Crowley escreve que o Universo é criado com certa dor, pois
assim somente assim é possível a união. Sendo essa divisão a essência da
natureza do universo, na qual ele traduziu em uma fórmula numérica: 0=2. O
artigo 29, explica melhor essa divisão: “Pois Eu estou dividida pela causa
do amor, pela chance de união”. Partindo de um ponto de vista gnóstico, o
universo é criado não é somente uma consequência da divisão, mas o objetivo em
si. Mesmo estando apartados da unidade, causa do sofrimento, é somente por isso
que há uma chance de união dessas partes divididas. Crowley, no Comentário de
Djeridensis, explica essa divisão como uma ilusão da Dualidade, mas se não
fosse essa ilusão não poderíamos ter a experiência do prazer do Amor, quando o
2 se torna 0. Mas se a divisão é uma ilusão, ela não é real, então criamos um
paradoxo. De qualquer forma, podemos dizer que há um certo sadomasoquismo na
criação do universo, não.
Sobre o mal do mundo, o Livro da Lei também revela uma visão
gnóstica otimista, no verso 9 do capítulo 2, Hadit diz: “Lembrai todos vós
que a existência é puro prazer; que todas as tristezas são nada mais que
sombras; elas passam e pronto; mas existe aquilo que permanece”. A
impermanência da tristeza só revela sua ilusão. No Comentário de Djeridensis,
Crowley parece concordar com a explicação de Guénon que o “o perfeito não
pode produzir o imperfeito” e a imperfeição é relativo: “As tristezas,
sendo, portanto erros de visão, e não reais em si mesmas, passam e terminam
assim que a mente cessa de se fixar nelas; sendo falsos pensamentos sobre os
Verdadeiros Eventos (....)”. Independente do ponto de vista, Hadit realizou
sua vontade, e a natureza dos eventos do universo é alegria, e a tristeza é um
erro do ponto de vista, ou uma ilusão causada pela dualidade.
Amor é a Lei, Amor sob
Vontade
Por Frater IAO136
Comentários
Postar um comentário