Brilha, Brilha Estrelinha
Brilha, Brilha Estrelinha
Quando comecei o
trabalho de probacionista, confesso que não sabia exatamente o que estava
fazendo, nem onde estava me metendo. Por mais que tivesse passado pelas
leituras canônicas, como Passando do Velho para o Novo Aeon e afins, eu
ainda não havia absorvido o peso real daquelas palavras.
Há muitos níveis de
compreensão de uma ideia. E, às vezes, quanto mais simples parece a mensagem,
mais desconfio da profundidade do rio.
Penso na Bossa Nova.
Minimalista, elegante, sutil e, ao mesmo tempo, filha de muitas camadas: do
samba, na batida de João Gilberto, que traduz toda a percussividade do ritmo;
do jazz americano, nas harmonias complexas e soluções inesperadas; da música de
concerto, na sofisticação das melodias, às vezes até roubos a Chopin. Tom Jobim
fez muitas homenagens. Eu poderia ficar aqui abrindo essas camadas, mas, quando
você escuta, parece simples, mas por traz são delicadas estruturas complexas.
Como Beatles. Como o som de um gongo tibetano.
O trabalho do
probacionista também parece simples, até que você começa a ler as entrelinhas
do contrato. E então ele se desdobra em múltiplas exigências: uma mudança de
percepção, a criação de um “corpo mágico” musculoso, a documentação rigorosa do
processo, a leitura constante e o compromisso de obter um conhecimento
científico da natureza e dos poderes do próprio ser. Para alguém que não sabe o
que está fazendo, essa complexidade pode ser tão desestabilizadora quanto a
própria natureza pós-moderna de dispersão, que também se revela como uma
espécie de ordália do caminho. Soma-se a isso a ansiedade por experiências
místicas grandiosas, memoráveis, quase cinematográficas. Eu mesma, como muitas
pessoas que conheço, tentei transformar essa jornada em algo heróico, cheio de
cenas dignas de romance.
Mas a verdade é que
foi quando me entreguei ao processo de forma crua e honesta que algo começou a
acontecer. Quando fui sincera com minhas tarefas, quando as questionei, quando
não entendi seus formatos e, ainda assim, continuei. Quando, pela repetição, os
gestos perderam o sentido e eu permaneci. Quando quis explodir tudo e, ao invés
disso, reconheci esse impulso e fiquei com ele. Foi nesse diálogo constante, às
vezes desconfortável, mas verdadeiro, que as respostas começaram a surgir.
Não entender faz
parte. Perguntar faz parte. Dialogar com o instrutor como uma criança perdida
de sete anos faz parte. O que pode ser realmente prejudicial é tentar ser
adulta antes do tempo, mascarar a ignorância e as fragilidades por ego, como se
já devêssemos saber. E talvez tenha sido justamente isso que me salvou nesse
percurso: o humor e o desejo de brincar com o desconhecido. Uma disposição
quase infantil de estar aberta ao novo, sem carregar o vício egoico de achar
que já sabe, ou que deveria saber tudo. Quando fazemos isso, caímos na
armadilha de completar com informações antigas aquilo que pode ser
essencialmente novo para a nossa percepção atual. Distorcemos uma ideia para
que ela caiba em nós, em vez de permitir que ela se apresente em sua completude.
O que entendi é que parte do trabalho de percepção é justamente limpar a visão
dessas camadas impostas, dessas ilusões adquiridas, para que possamos encontrar
as coisas como são, e não apenas como aprendemos a enxergá-lo.
Outra coisa importante
que demorei a entender e que hoje me parece central para esse caminho é o
trabalho de construção do amor próprio. Pode soar como autoajuda, mas é uma
verdade difícil de contornar. Sem esse amor, não há sustentação possível da
Vontade.
É ele que constrói uma
espécie de rede de segurança interna, que permite que sejamos sinceros conosco
mesmos diante das nossas maiores fragilidades. Sem essa base, evitamos olhar,
desviamos, endurecemos. Com ela, conseguimos permanecer. Amar cada parte de si,
até entrar em êxtase com aquilo que somos, inclusive com aquilo que ainda não
entendemos, é também uma forma de investigação. O amor destrói o medo. Ajuda a
discernir o que, de fato, nos pertence e o que é apenas camada, defesa, ilusão.
O amor, nesse sentido, se torna uma Bússola Dourada. Ele aponta o que é
realmente nosso e o que não é. E, curiosamente, é também ele que permite que
nos olhemos com humor. E isso é diferente de nos acharmos uma piada humilhante.
Isso é bullying que traz culpa, vergonha e outros desesperos cristãos. Falo
aqui do Humor-Amor que reduz os eventos ao que ele realmente são, que nos
mostra os absurdos dos grãos de areia e nossas distorções, que relaxa os
músculos e nos faz andar. O percurso pode ser tortuoso, às vezes desesperador,
atravessado por raiva, dor e angústia. Mas saber rir de si mesma, reconhecer o
absurdo de certos estados internos, também é uma ferramenta poderosa. Alívio
Cômico.
Tão menosprezada
quanto o amor, é também a Alegria. Falo dela porque se revelou um recurso
fundamental nesse meu caminho. Sei que temos preconceito com o sentimento,
muito dele fundamentado em manifestações do povo gratiluz, essa magia que de
tão branca carrega a cruz de Cristo, mas não podemos deixar que eles sequestrem
sua força. “A alegria é a prova dos nove”, bem como o amor. Nós brasileiros
sabemos da força da Alegria, nós fizemos o Carnaval, o São João, o Frevo, o
Samba e todas as festas populares porque entendemos que a Alegria é tecnologia
de guerra selvagem. Contra toda apatia, toda dor, nós temos a arma mais
absurda. Como bem diz Hadit:
"9. Lembrai-vos
todos vós de que existência é pura alegria; de que todos os sofrimentos são
apenas como sombras; eles passam & estão acabados; mas existe aquilo que
resta."
Com o tempo, fui
entendendo que o conhecimento em jogo aqui não é apenas racional. Ele começa
pela razão, claro, mas não termina nela. Existe uma dimensão sensível da
compreensão, que envolve emoções, sensações e percepções que não cabem
totalmente nas palavras. São experiências que só se tornam inteligíveis quando
vividas.
É como ouvir uma
música sobre um coração partido. A gente ama, canta junto, se reconhece. Mas só
quando atravessa um rasgo no peito compreende, com o corpo inteiro, o que
aquela música estava dizendo. Quatro minutos podem conter uma verdade imensa,
mas no corpo “o amor deixa marcas que não dá pra apagar”. Assim também é, para
mim, o trabalho do probacionista. Os textos ajudam, são mapas, são músicas que
me acompanham, mas eles mudam à medida que eu caminho. Volto a eles e encontro
outras imagens, outros sentidos. Outros Abaporus.
Em algum momento,
pensei em abandonar meu motto Abaporu. Mas, com o tempo, ele foi se
revelando cada vez mais meu. Sobreviveu às ordálias, aos instrutores, às
linhagens. Hoje vejo com carinho que uma versão minha do passado lançou algo
para o futuro que eu agora abraço. Sem entender quase nada, ela foi visionária.
E, mais do que isso, amorosa. Pensei em mim e como teria sido mais fácil esse
caminho todo se alguém tivesse me dito essas coisas, mas ao mesmo tempo foram
os desvios que encheram minha minha bolsa dourada com pérolas.
Então digo a mim hoje
o que diria ao meu passado, como uma oração, para não esquecer, porque a ilusão
do mundo faz com que a gente se esqueça das coisas importantes e a nossa
situação faz com que precisemos ficar repetindo tudo, pra que entre no corpo,
pra que não saia do corpo, para manter a Fogueira sempre viva:
★
“Seja menas”. Menos é mais. Risos.
Seja simples. Faça o seu trabalho como em Dias Perfeitos. Durma bem e
tente viver, se possível, algum ócio. Não se preencha de tarefas que não irá
conseguir sustentar.
★
Alegria é a prova dos nove. Não
deixe a peteca cair. Escolher fazer as coisas da maneira que acha mais bonita e
prazerosa também é um método. O blues foi inventado em campos de algodão. Tudo
que é gostoso é mais fácil de fazer. Mas atenção, querida Estrela Dândi: não
cale os seus delírios mas também não invente castelos de cartas.
★
O tamanho do trabalho é, muitas
vezes, o tamanho das nossas expectativas. Não deixe que a ansiedade crie
monstros, nem espere resultados milagrosos ou espetaculares. A maioria das
pessoas não vê nem fala com fantasmas. Não espere que todo dia seja uma viagem
psicodélica. MAS TEM DIA QUE É. E lutamos todos os dias para termos essas
experiências únicas e raras.
★
Brilhe, dê tudo de si. Não bata
fofo. Não deixe a intenção cair, é isso que os demônios da inércia estão
esperando para atacar. O trabalho é difícil, repetitivo, às vezes entediante.
Mas isso também revela algo: o corpo é duro. As ondas precisam quebrar muitas
vezes nos arrecifes antes de chegar à praia.
★
Confie no método da sua linhagem.
Muitos já passaram por aqui, há uma história sendo contada e atravessando o seu
corpo. Você está viajando no tempo e no espaço e se conectando com sua
egrégora.
★
E talvez o mais importante: se
você perguntar, o seu corpo responde. Aprender a ouvir os pensamentos que
nascem do corpo, afinar essa escuta consigo mesma, talvez seja, no fim, o
grande milagre.
Soror Abaporu Sugar Star
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